Trump se recusa a participar de debate após comissão torná-lo virtual

A Comissão de Debates Presidenciais anunciou, nesta quinta-feira (8), que o segundo debate entre os candidatos Donald Trump e Joe Biden, agendado para 15 de outubro, será virtual para evitar o risco de propagação do coronavírus.

O republicano e o democrata, entretanto, reagiram à informação oficial de maneiras diferentes. Trump foi rápido em dizer que não participaria do debate nessas condições, enquanto a campanha de Biden sugeriu que o evento seja adiado em uma semana.

“Não, eu não vou desperdiçar meu tempo em um debate virtual. Isso não é debate”, disse Trump, em entrevista à emissora Fox Business. Para o presidente, a mudança no “estilo do debate” é inaceitável.

“Eu o venci facilmente no primeiro debate e esperava vencê-lo de novo no segundo”, acrescentou, referindo-se a Biden e contrariando as principais pesquisas feitas após o primeiro duelo entre os dois candidatos, segundo as quais a avaliação da maior parte do público é que o democrata teve o melhor desempenho.
Minutos após o anúncio da decisão, o coordenador da campanha republicana, Bill Stepien, publicou uma nota no site oficial do presidente afirmando que a mudança no debate é uma “triste desculpa” para favorecer Biden. Segundo o texto, Trump fará um comício em vez de participar de mais um duelo contra seu adversário.

“É patético que as criaturas do pântano da Comissão de Debate Presidencial corram agora em defesa de Joe Biden, cancelando unilateralmente um debate presencial”, escreveu Stepien. “A segurança de todos os envolvidos pode ser facilmente alcançada sem cancelar a chance de os eleitores verem os dois candidatos frente a frente.”

No primeiro debate, há pouco mais de uma semana, familiares de Trump e membros de sua equipe descumpriram a regra de usar máscaras no estúdio. O presidente chegou a zombar de Biden que, segundo ele, usava uma máscara grande demais. Dois dias depois, Trump recebeu o diagnóstico de Covid-19.
A diretora da campanha de Biden, Kate Bedingfield, disse, pouco após o anúncio da comissão, que o democrata considera bem-vinda a oportunidade de participar de um debate virtual.

“Biden espera falar diretamente ao povo americano e comparar seu plano de unir o país e reconstruir melhor com a liderança fracassada de Donald Trump diante do coronavírus, que lançou a economia forte que ele herdou na pior recessão desde a Grande Depressão”, disse Bedingfield.

Horas depois, a campanha fez um novo anúncio e sugeriu que o evento ocorra em 22 de outubro, uma semana depois da data original. Para o dia 15, de acordo com o documento, “Biden encontrará um local apropriado para ouvir as perguntas dos eleitores”.

Segundo o comunicado assinado por Bedingfield, o ex-vice-presidente estava preparado para aceitar a alteração no formato do debate, mas “Trump claramente não quer enfrentar as perguntas dos eleitores sobre suas falhas diante da Covid-19 e da economia”.

O adiamento, segundo os democratas, seria uma forma de evitar que Trump “fuja de sua responsabilidade” e de possibilitar que os eleitores “tenham a chance de fazer perguntas aos dois candidatos diretamente”.

“Cada candidato presidencial desde 1992 participou desse tipo de evento, e seria uma vergonha se Donald Trump fosse o primeiro a recusar”, diz o documento.

Mais cedo, Biden falou com jornalistas sobre a alteração no debate e criticou a volatilidade das opiniões do líder republicano.

“Nós não sabemos o que o presidente vai fazer. Ele muda de ideia a cada segundo”, disse o ex-vice presidente.

De acordo com a decisão desta quinta, o debate de 15 de outubro será remoto “para proteger a saúde e a segurança de todos os envolvidos”. O público participante e o moderador Steve Scully estarão em um centro de eventos em Miami, na Flórida, e os candidatos poderão participar por meio de videoconferência.

Para Trump, “sentar na frente de um computador e fazer um debate é ridículo”, mas um encontro não presencial na corrida pela Casa Branca não é algo inédito. Em 1960, havia quase 4.500 km de distância entre os candidatos Richard Nixon, que estava em Los Angeles, e John F. Kennedy, que estava em Nova York e acabou vencendo a eleição.

Em entrevista à CNN, o copresidente da Comissão de Debates Presidenciais, Frank Fahrenkopf, disse que Trump e Biden não foram consultados para a tomada de decisão, mas têm todo o direito de recusarem a participação.

“Não há nenhuma lei que obrigue qualquer candidato presidencial a debater. Na verdade, em 1980, Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos, recusou-se a participar do primeiro debate, mas participou do segundo”, disse Fahrenkopf. “Portanto, cabe a cada candidato decidir se deseja debater ou não.”

Na ocasião citada por Fahrenkopf, o então presidente Carter deixou de participar do primeiro debate presidencial devido à presença de um terceiro candidato. Além dele próprio, representando o Partido Democrata, e do republicano Ronald Reagan, o candidato independente John Anderson também foi convidado a debater suas propostas.

O porta-voz da Casa Branca, à época, de acordo com o jornal Washington Post, disse que Carter não tinha “intenção de participar de debates com candidatos de terceiro, quarto ou quinto partidos”. Naquele ano, o democrata acabou sendo derrotado por Reagan.

O debate em 15 de outubro era uma incógnita desde que Trump anunciou que ele e sua esposa, Melania, receberam diagnóstico de Covid-19. O líder americano chegou a ser hospitalizado e precisou de oxigênio suplementar, enquanto as informações sobre seu real estado de saúde se tornaram um mistério diante de uma série de informações conflitantes.

Além da primeira-dama, pelo menos 22 pessoas do entorno de Trump também descobriram a contaminação pelo coronavírus depois de se encontrarem com o presidente em reuniões e eventos de campanha, de acordo com levantamento atualizado diariamente pelo New York Times.

Biden, que esteve com seu adversário republicano durante o debate há pouco mais de uma semana, fez testes para detecção do vírus mas os resultados foram negativos. Nesta semana, o democrata chegou a sugerir que o debate fosse cancelado caso Trump ainda estivesse infectado.

Na entrevista à Fox Business, o republicano voltou a louvar o tratamento que tem recebido desde os três dias em que ficou internado em uma suíte presidencial no hospital militar Walter Reed. Também disse estar pronto para voltar às atividades de campanha.

“Acho que eu não sou mais contagioso. Eu vejo como uma cura, não apenas uma terapia”, disse, em referência ao coquetel REGN-COV2, fabricado pela farmacêutica Regeneron. O medicamento é uma combinação de cópias sintéticas de anticorpos humanos e emula a função do sistema imunológico para combater os vírus.

O coquetel ainda está sendo usado de forma experimental, mas é considerado o tratamento mais promissor para a Covid-19, já que antivirais como o remdesivir também utilizado pelo presidente americano, e substâncias como a cloroquina e a ivermectina trouxeram pouco benefício aos pacientes.

Em vídeo publicado em suas redes sociais nesta quarta (7), Trump disse que o medicamento é mais importante para ele do que uma vacina e prometeu distribuí-lo de graça a todos os americanos que precisarem de tratamento.

Fonte: Folhapress

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