Padre da Diocese de Picos relata rotina na Itália e faz alerta sobre o coronavírus

O padre Carlos Danilo de Araújo, da Diocese de Picos, que está residindo atualmente em Roma, relatou um pouco, através de um áudio, como tem sido a rotina na capital da Itália, país que já chegou a registrar 743 mortes em apenas um dia, em decorrência do Coronavírus.

O padre Danilo, que já atuou como pároco em cidades como Paulistana e Betânia, está cursando seu mestrado em Roma e mora no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, juntamente com outros padres.

Segundo ele, a humanidade está vivendo um dos períodos mais difíceis da história. “Estamos vivendo esses dias talvez um dos períodos mais difíceis da história da humanidade. Líderes políticos aqui da Europa, por exemplo, como o primeiro ministro Giuseppe Conte e a chanceler alemã Angela Merkel, disseram que esse é o pior acontecimento na história do planeta, depois da segunda guerra mundial. E o é, porque é devastador a gente ver o mundo inteiro preocupado com o vírus” falou

Padre Danilo disse que no início o problema parecia distante e não recebeu a real importância. “Estamos aqui em Roma e quando tudo começou víamos tudo muito longe. Quando chegaram os dois primeiros casos na Itália, justamente em Roma, a gente pensava que era algo que rapidamente se desenvolveria uma vacina, logo estaríamos todos imunizados e assim a vida prosseguiria normal. A verdade é que nós nunca demos a real importância para isso e continuamos a vida. Hoje estamos aqui vivendo literalmente uma quaresma e uma quarentena”.

Ele relatou que a vida mudou e que nas ruas, antes movimentadas, o barulho que se ouve constantemente é o de sirenes. “Estamos só em casa, a vida mudou durante esses dias. Não vamos mais as universidades, nós que somos padres estudantes, porém estamos tendo vídeo aulas de alguns professores. E estamos tentando manter um pouco a rotina, embora seja muito difícil. Hoje fui até a varanda olhar um pouco uma avenida movimentadíssima que passa aqui na frente e a única coisa que a gente escuta hoje são poucos carros que passam e muito barulho de sirenes de ambulâncias, certamente levando doentes aos hospitais”.

Segundo o padre, a rotina no local onde vive mudou completamente. “Moro aqui no Pontifício Colégio Pio Brasileiro. Hoje estamos em torno de 50 padres, que ficaram aqui quando começou o surto do coronavírus aqui na Itália. Os outros, cerca de 20, decidiram ir ao Brasil. Aqui tivemos que adotar medidas dentro da nossa casa, a rotina mudou. As mesas que eram para seis padres, agora só sentam três; as missas aqui na nossa casa nós dividimos as missas; não podemos sair pois aqui a regra da quarentena é extremamente rigorosa; o exército e a polícia estão nas ruas; para sairmos precisamos levar uma ficha que o governo disponibiliza na internet, se você sair sem essa ficha pode ser preso ou levar uma multa”Padre Danilo disse que vive-se uma guerra contra um inimigo invisível e que as cenas que são vistas, chocam. “É uma experiência única essa que estamos vivendo, é uma guerra com um inimigo que não só tem o seu poder, mas que é também invisível. Para nós que estamos aqui, passamos o tempo todo em alerta, buscando sempre as recomendações que o Ministério da Saúde aí no Brasil já deu e daqui também, de lavar sempre as mãos, evitar contato próximo, estar atento. Vejo cenas que me chocam, como por exemplo na cidade de Berga, os crematórios já não tem mais vaga para cremar tantas pessoas que estão morrendo. Aquela cena que a gente viu de mais de setenta caixões sendo colocados em carros do exército para levar para outros lugares. […] Dói a gente ver essa situação, é uma situação de guerra”.

Mas, em meio ao caos, o padre relatou que é possível ver também solidariedade. “Mas a gente vê gestos de solidariedade. Cuba mandou 65 médicos para ajudar aqui na Itália, a China já mandou duas equipes de médicos, além de aparelhos, ventiladores, necessários para respiração. Mesmo diante da dificuldade desse momento a gente observa a solidariedade entre as pessoas, o prazer em ajudar e acima de tudo, observamos que a fé e a união fazem toda a diferença. Temos obrigação de oferecer ao povo esperança e esperança só se oferece quem tem fé”. Para o padre, o vírus também traz uma lição. “Esse vírus mostra também para nós a fragilidade da vida humana. Ele foi um tapa na nossa cara e está mostrando ao mundo que não adianta separar, levantar muros entre as nações, haver segregação de pessoas, a gente querer dividir fronteiras. Somos todos irmãos, precisamos dar as mãos. A busca pela cura do coronavírus, por exemplo, está fazendo com que toda comunidade internacional se movimente. É um grande experiência também de solidariedade, mesmo na dor, mesmo no sofrimento que estamos vendo”.

O sacerdote ainda disse que é preciso manter a fé e pedir para que Deus ilumine a sabedoria humana. “Vamos agora ficar de braços cruzados? A vida parou? De maneira alguma. Eu como estudante continuo colocando minhas leituras em dia, meus trabalhos. Mas acima de tudo, é preciso manter sempre acesa a chama da fé, acreditar que isso vai passar e pedir sempre a Deus que ilumine a sabedoria do homem, pois Deus deu a nós a inteligência e a inteligência do homem já fez muitas coisas do mundo. Precisamos continuar tendo fé porque Deus vai agir no momento oportuno. Fé para que Deus ilumine a sabedoria dos cientistas para que eles possam logo descobrir uma vacina, uma cura. Fé para que possamos redescobrir nossos valores” disse.

 Por fim, ele fez um alerta aos brasileiros, em especial aos piauienses, para que fiquem em casa. “Peço a você que está no Brasil, que está nessa região boa de Paulistana, Acauã, Betânia, Queimada Nova, Picos, onde tive prazer de trabalhar, que fiquem casa, pois o contágio é rápido e não temos estrutura suficiente. Precisamos lembrar que os hospitais não vão cuidar somente de quem está com coronavírus, tem gente com outras doenças que já superlotam os hospitais, já sobrecarregam os médicos, enfermeiros, técnicos. Se toda essa população for para o hospital, o sistema de saúde entrara em colapso. Então tente se resguardar, fica em casa, não dê trabalho, não saia, é o mínimo que você pode fazer. Fique em casa, pois vai evitar a transmissão do vírus. Fique em casa, é só isso que peço”.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui